Capítulo 5

As celas eram frias, úmidas e sujas, desconfortáveis. Apenas uma cama, vaso sanitário e pia me

foram dadas, sendo um único cobertor a única coisa para me aquecer. Havia espaço mínimo, cada

cela com três paredes de pedra e grades ao longo da parede onde ficava a porta.

Sete dias haviam se passado e então hoje, finalmente, eu iria ser julgada perante a alcatéia pelo meu

suposto assassinato. Eu sabia que as provas estavam empilhadas contra mim. Na verdade, seria

quase impossível para mim ganhar. A única esperança que me restava era que Sophie ainda

estivesse viva. Se ela pudesse testemunhar dizendo que como eu estive dentro de meus aposentos a

semana toda, tornando impossível ter envenenado Thea, então eles seriam forçados a aceitar a

possibilidade de eu não ser a culpada.

“Levante-se,” um guarda ordenou rispidamente do lado de fora da minha cela.

Eu o reconheci. Seu nome era James e eu visitei sua família em várias ocasiões em nome dos

membros classificados ao longo dos anos.

Trêmula, levantei-me a seu pedido, não tendo comido direito a semana inteira por causa do estresse,

e fiz meu caminho para o lado.

James entrou e me empurrou contra a parede de pedra, me fazendo estremecer de dor. Mas eu sabia

que os hematomas iriam se misturar com os outros que eu já tinha. Devido à ansiedade e a falta de

comida, meus ferimentos não estavam se curando tão rápido quanto um lobisomem se cura.

“Sophie estará no julgamento?” Perguntei na hora em que ele me empurrou para fora da cela.

Ele não respondeu, preferindo ficar completamente em silêncio enquanto continuava a me empurrar

para a saída. Eu não sabia dizer se ele tinha sido instruído a não falar comigo, ou se ele realmente me

odiava.

Estávamos passando pelas outras celas e, ao fazê-lo, meus olhos verificaram cada uma através das

barras, procurando desesperadamente por Sophie. Eu precisava que ela estivesse lá. Eu precisava

dela para me inocentar.

No entanto, assim que passamos pela quinta cela, meus olhos se depararam com um homem com

cabelos grisalhos familiares.

“Pai!” Eu gritei, lutando para me mover em direção a ele contra a força de James.

“Ária?!” ele ofegou. “O quê você está fazendo aqui em baixo?”

Lutei um pouco mais contra James, mas seu aperto era muito mais forte que o meu. Ele continuou

tentando me empurrar em direção à porta e percebi que não seria capaz de vencer apenas pela força.

“James! Por favor!” Eu implorei, virando-me o melhor que pude para encará-lo. “Se eu morrer hoje, por

favor, deixe-me falar com meu pai uma última vez. Eu sei que você pode não acreditar em mim, mas

eu realmente não machuquei ninguém e especialmente nunca machucaria um bebê. não me prive da

minha última chance de dizer adeus.”

O rosto de James era severo, tentando ser ilegível, mas eu podia ver a inquietação em seus olhos.

Sua mandíbula apertou enquanto ele olhava para mim.

“Por favor… James. Eu estava lá no seu casamento… Eu estava com sua companheira quando ela

deu à luz seu filho! Por favor, me dê cinco minutos para dizer adeus. Por favor.” Lágrimas começaram

a brotar em meus olhos. “Por favor… Por favor… Por favor, apenas me permita isso. Eu prometo

cooperar totalmente no caminho para o julgamento depois.”

James ainda parecia em conflito, mas ele finalmente me deu um aceno rígido de acordo. Suspirei de

alívio, eternamente grata por sua compaixão. “Obrigada, James, muito obrigada.”

Corri para a cela do meu pai que já estava esperando por mim nas barras, sua expressão era uma

mistura de horror e descrença.

“Me desculpe, eu não consegui tirar você,” eu gritei para ele. “Eu queria, realmente queria, mas sabia

que seria impossível com as medidas de segurança em vigor.”

“Shhh, não seja ridícula. Eu sabia que não havia nada que você pudesse fazer”, ele me acalmou.

“Estou grato por você não ter tentado me resgatar. Eu aceitei as consequências e sabia o que estava

fazendo. Mas por que você está aqui? Você disse que está a caminho de um julgamento? O que

aconteceu?”

Eu fiz uma careta com o pensamento.

“O bebê de Thea”, eu disse. “Todos eles pensam que eu a envenenei com algum tipo de erva para

induz aborto.”

“O quê?! Thea perdeu a criança? Mas isso é loucura! Por que eles iriam te acusar?”

“Não é óbvio?” Eu sorri amargamente. “Claro que todo mundo vai apontar o dedo para a companheira

desprezada do Alfa. Eles revistaram meu quarto também. Aparentemente encontraram a erva em

questão debaixo da minha cama, mesmo que eu nunca a tenha visto antes na minha vidae nem faça

ideia de como foi plantada lá.”

“Oh, Aria… minha garotinha… eu sinto muito.” Seus olhos estavam lacrimejando com a visão das

minhas lágrimas. Eu nunca o tinha visto mostrar tanta emoção antes, tanta tristeza. Mesmo quando

minha mãe morreu, ele se confinou por um tempo para esconder sua emoção dos outros.

“Sinto muito por ter sido uma decepção para você, para a nossa família.” Eu chorei, olhando para o

teto para tentar parar minhas lágrimas.

Eu não conseguia olhar para ele. Tudo o que eu tinha feito trouxe vergonha para nossa família. Eu via

isso em seu rosto todos esses anos.

“Aria, não, nunca. Você nunca me decepcionou, nem poderia.” Sua voz era tão gentil, tão calma, mas

carregada de tanta tristeza.

Olhei para ele em estado de choque. “Mas você sempre me olhou como tal. Quando minha

infertilidade foi anunciada, eu vi como você estava. Parecia que envergonhava a nossa casa.”

“Não! Claro que não”, disse ele, quase ofendido. “Fiquei desapontado em como a Deusa lhe deu

apenas mais azar. Fiquei desapontado em como uma divindade tão grande escolheu você para um de

nossos postos mais altos, apenas para deixá-la sofrer tanto. Eu sabia como Aleric a tratava, e eu não

fiz nada. Eu deveria estar me desculpando, não você. Eu deveria ter levado você embora. Sinto muito,

Aria.

Meu pai chorou, lágrimas caíam pesadamente pelo seu rosto. Meu pai, o Beta da maior alcatéia do

país, tão forte e poderoso, estava chorando por mim, pedindo desculpas por não ter cometido traição

antes, ajudando-me a escapar. Foi esmagador ouvir, meu corpo começou a tremer.

Meus braços estavam algemados nas minhas costas, mas eu pressionei minha testa contra as barras

de metal frias para estar mais perto dele. O melhor que pude, embora estranho, e com as barras entre

nós, ele tentou envolver seus braços em volta de mim e pressionou sua testa contra a minha. Foi um

momento para nós dois chorarmos juntos.

Depois que outro minuto se passou, James limpou a garganta atrás de nós. “É hora de ir”, disse ele

sem jeito.

Eu sabia que esta deve ter sido uma visão estranha ou talvez até difícil para ele assistir. Não muito

tempo atrás, ele nos servia. No entanto, aqui estávamos nós, soluçando juntos entre as grades das

celas, nos despedindo.

Eu balancei a cabeça e relutantemente me afastei. Esta foi uma das coisas mais difíceis que eu já tive

que fazer na minha vida. Eu me sentiria melhor sabendo que meu pai não me odiaria se eu morresse

hoje? Ou teria tornado mais fácil deixar este mundo sabendo que quase ninguém se importava

comigo? Era só Sophie, mas agora havia meu pai. Como eu poderia deixá-los ? Eles iriam morrer

porque tentaram me ajudar, sabia disso. Me amar os mataria.

“Eu te amo, Aria,” meu pai disse uma última vez antes de James me agarrar. “Eu te amo tanto, sempre

amei. Por favor, não se esqueça disso.”

“Eu também te amo, papai”, eu chorei.

James me moveu em direção à porta e eu andei o melhor que pude sem que ele precisasse me

empurrar dessa vez. Meus olhos ardiam tanto com as lágrimas que derramei, minha visão estava

turva, mas consegui andar com certa firmeza. Eu tinha concordado em não tornar mais difícil para

James me levar para o campo de julgamento e eu devia isso a ele por aqueles breves momentos que

ele me deu. Eu andaria o resto do caminho em silêncio e sem protesto.

Uma vez do lado de fora, levou apenas alguns minutos de caminhada pela floresta até onde o

julgamento seria realizado. Era considerado um local sagrado dentro de uma clareira na floresta,

cercado por um enorme círculo de grandes pedras cobertas de musgo que haviam sido colocadas por

nossos ancestrais. Os julgamentos eram sempre realizados à noite, quando a lua estava alta no céu;

sendo assim para que a Deusa pudesse testemunhar pessoalmente o julgamento.

Quando chegamos, ficou imediatamente claro que toda alcatéia estava presente. Havia tanta gente

que eles precisaram se espalhar mesmo fora do círculo. Todos me olhavam com malícia enquanto

abriam caminho para que eu e James passássemos, alguns cuspiam ou me xingavam enquanto

caminhávamos.

Quando entramos no círculo, começamos a caminhar até o centro. A clareira ficava em um pequeno

monte, então quanto mais perto do meio chegávamos, mais alto se tornava até que o chão se

nivelasse no topo. Isso era para que todos ao redor pudessem ver facilmente.

Dentro, eu podia ver algumas figuras-chave. Aleric estava atrás de um pódio e estava vestido

elegantemente, exalando a presença que você esperaria de nosso líder destemido. Mas olhar para ele

agora parecia estranho. Lembrei-me de como não muito tempo atrás borboletas teriam enchido minha

barriga e meu coração teria disparado só de vê-lo. Mas agora não havia nada além de medo; medo de

que ele acabasse me executando hoje. Medo de que ele me machucasse uma última vez. Mesmo com

o vínculo quebrado, este homem tinha minha vida em mãos e o poder de acabar com ela.

Claro, Thea também estava presente, sentada em uma cadeira à direita de Aleric; o lugar

normalmente reservado para a Luna. Eu queria sentir raiva de vê-la sentada ali… mas não consegui.

Na verdade, eu não poderia me importar menos com minha antiga posição. Eu nunca pedi por isso.

Claramente, seria necessário que a alcatéia experimentasse primeiro antes de perceber o erro que

cometeram. Thea não era Luna no coração.

Os Anciãos estavam sentados em um semicírculo ao redor de Aleric e Thea, e à esquerda deles eu vi

que Brayden e meu primo, Alexander, também estavam presentes. Não fiquei surpresa ao ver meu

primo ali, já que a alcatéia exigia um Beta. Sem filhos diretos deixados por meu pai, eles teriam que se

voltar para os filhos de seu irmão mais novo.

Alexander vinha treinando para assumir a posição de Beta há algum tempo, era justo que fosse sua.

Ele se parecia comigo, mas seu cabelo era mais loiro do que prateado e ele ostentava olhos azuis,

não violeta. Nós nunca fomos realmente próximos, mas, novamente, eu nunca tive a oportunidade de

me aproximar de alguém enquanto crescia. Desde o momento em que nasci, a alcatéia já havia

determinado meu destino.

Um grande toco de carvalho fora colocado diante do pódio. Eu sabia o que era, é claro, e meu

estômago estava enjoado. Eu o tinha visto ser usado apenas poucas vezes, mas era o suficiente para

trazer pesadelos. Era ali que os culpados deitavam a cabeça para serem executados, uma grande

espada cerimonial fazendo as honras.

Sentei-me em frente ao toco no chão frio, meu corpo já tremendo de frio. Eu usava apenas um vestido

branco fino, minhas roupas foram tiradas de mim pouco depois de eu ter sido trancada.

“Parece que todo mundo está aqui”, disse Aleric, projetando-se na multidão. Seus olhos percorreram

os rostos de todos ao redor antes de finalmente pousar em mim. “Estamos reunidos aqui hoje para

testemunhar o julgamento de Ariadne Chrysalis, ex-Luna da alcatéia Névoa de Inverno.”